Baleia Azul: o que posso fazer pelo meu filho?

April 20, 2017

Por Carolyne Juvenil, psicóloga e terapeuta cognitivo-comportamental

 

As duas últimas semanas trouxeram um bombardeamento de notícias em todas as mídias sobre o jogo Baleia Azul. Juntamente com as notícias, comentários e vídeos, também houve um crescente desespero dos pais ao se depararem com a potencial ameaça aos filhos. Minha primeira orientação pode parecer insensível, mas é necessária.

 

Calma. Mantenham a calma.

 

Enquanto um estado de pânico for mantido não será possível que você entenda o que de fato está ocorrendo. É preciso parar, buscar informação, refletir e somente então, agir. Invadir o quarto do seu filho aos gritos perguntando se ele está jogando Baleia Azul não ajudará em nada. Antes de tudo, vamos entender do que se trata.

 

O jogo Baleia Azul seria derivado de um jogo russo, o Blue whale, e consistiria de uma série de 50 desafios perigosos até o desafio final: cometer suicídio. Os desafios incluiriam tarefas como cortar a própria pele e assistir a filmes de terror por trinta horas seguidas. Cada item seria passado por um moderador. Após entrar no desafio, não haveria a opção de abandoná-lo. Pesquisei sobre o jogo no dia em que vi o primeiro post de Facebook a respeito, porém não encontrei nenhum artigo em fontes renomadas. Vi apenas sites pequenos e pouco conhecidos, sem credibilidade jornalística. Obviamente o cenário mudou desde então e já é possível encontrar uma torrente de notícias em grandes meios de comunicação sobre a tal "febre da Baleia Azul". Entretanto, é necessário ter atenção às notícias: toda morte de adolescente anunciada como movida pelo jogo é posta como uma possibilidade. Talvez o jogo tenha a ver, talvez não. É claro que o perigo envolvido no desafio não deve ser descartado, pois em notícia recente publicada pelo Estadãouma adolescente de 15 anos relatou à polícia ter participado do jogo. Entretanto, creio que todo o horror causado pelo desafio vem do contato público com uma informação pouco conhecida: a de que crianças e adolescentes se matam.  

 

O Mapa da Violência de 2014 mostrou que os suicídios vêm aumentando progressivamente no país. De 1980 a 2012, o crescimento foi de 62,5%. Entre a faixa etária de 10 a 14 anos, o aumento entre 2002 e 2012 foi de 40%. Entre os adolescentes de 15 a 19, tivemos um aumento de 33,5%. São números assustadores. E números que mostram que não é um jogo que está fazendo jovens se matarem. Eles já vinham fazendo isso. O que é mais preocupante em crianças e adolescentes é sua impulsividade, pois o cérebro ainda está em processo de maturação cerebral. Isto quer dizer que a passagem entre uma ideia - boa ou ruim - e sua execução é muito mais rápida entre os mais jovens, não havendo o mesmo nível de análise complexa de vantagens e desvantagens que um adulto consegue ter. E por isso é importante a sua presença enquanto pai, mãe, familiar, professor ou alguém próximo de uma criança ou adolescente. Você pode ajudar uma pessoa em risco.

 

O suicídio é o ato final de um período de desespero e desesperança persistentes. Conversar consistentemente com a criança ou o adolescente é a primeira e principal forma de ajudar. O suicida em potencial sente-se solitário, isolado. Ninguém entende o tamanho de sua dor. É importante ter conversas abertas em que você valide as emoções daquele jovem. E não hesiste em perguntar se ele já pensou em se matar. Às vezes não há o pensamento específico de tirar a própria vida, porém estão presentes desejos de que tudo acabe. O senso comum associa o suicídio à tristeza, porém o sentimento mais forte é a desesperança: a vida é demais, o peso é demais, não estou aguentando mais. O principal fator de risco é já ter feito alguma tentativa de suicídio prévia. Caso perceba alguma ideia desse tipo ou descubra tentativas anteriores, busque ajuda de um psiquiatra e de um psicólogo. Outros sinais que podem estar presentes são abuso de álcool ou drogas, queda no desempenho escolar, isolamento, agressividade, abuso sexual e automutilação.

 

Todos os sinais são observáveis por conversa e atenção. Fale com a criança. Pergunte, se interesse. Mostre a ela que você está ao lado dela, que o que ela está sentindo não vai durar para sempre e vocês buscarão ajuda juntos para que ela melhore. Não é necessário um jogo mortal aparecer para olhar para as crianças e adolescentes. Estar presente para alguém que precisa é um exercício diário que faz toda a diferença. No caso do suicídio, pode significar vida. 

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