Ansiedade social, esse medo do olhar do outro

March 26, 2018

 

Por Carolyne Juvenil, psicóloga e terapeuta cognitivo-comportamental

 

Há algum tempo tenho contato com A., uma amiga que fiz apenas pelas redes sociais. Ela é muito inteligente e nos damos bem por termos interesses semelhantes em cinema e literatura. Lembro de ler seus posts contando sobre interações nas reuniões de família e sobre as expectativas para o novo emprego e notar uma certa ansiedade excessiva para tais eventos. Ela sempre parecia esperar ter o pior desempenho possível nas situações sociais e sofria muito com a perspectiva de ser pressionada a falar em público. A avaliação que fazia de si mesma após as situações era sempre negativa, até mesmo cruel. O olhar do outro parecia apavorá-la.

 

Por algumas conversas que tivemos depois, creio que minha amiga sofre de transtorno de ansiedade social, também conhecido simplesmente como fobia social. Neste quadro há um medo intenso da avaliação de outras pessoas. A pessoa que sofre de fobia social teme entrar em qualquer situação na qual possa ser julgada ou humilhada, indo desde situações de interações simples com outras pessoas a ter que desempenhar alguma função publicamente. Desta forma, tanto conversar com alguém quanto apresentar um trabalho ou mesmo comer na frente de outras pessoas pode ser fonte de sofrimento. O fóbico social apresenta vários sintomas físicos de ansiedade associados às situações de exposição social, como tremor, rubor, suor, tensão muscular, voz trêmula, palpitação, desconforto abdominal, entre outros. O que faz o quadro ser um transtorno é o prejuízo vivido pela pessoa: fóbicos sociais evitam fazer atividades sociais para evitar o contato com o outro, assim prejudicando sua vida social, acadêmica e ocupacional.

 

O ciclo que mantém a ansiedade social é especialmente doloroso por não limitar o sofrimento ao momento da situação social. Antes de entrar em qualquer situação, o indivíduo antecipa em sua mente todas as piores coisas que podem acontecer, imaginando cenários horrorosos e as reações negativas dos outros ao seu desempenho ruim. Imaginemos um funcionário que terá de falar durante uma reunião de trabalho e antes dela imagina a si mesmo gaguejando, tremendo, com todos notando seu nervosismo e julgando mal suas colocações. Esta ansiedade antecipatória faz com que já entre na reunião muito nervoso e com expectativas catastróficas.

 

Ao entrar na situação, o funcionário fica atento a todos os sinais físicos da ansiedade e ao próprio desempenho, o que aumentará o foco em si mesmo e o deixará ainda mais ansioso. Outro efeito negativo de tamanho foco em si mesmo é não ficar atento aos sinais do ambiente e perder informações sobre a dinâmica da situação social, o que também pode comprometer seu desempenho - afinal, como interagir bem com o outro se o foco está todo em si e não é dada atenção às contribuições da outra pessoa? A pessoa com ansiedade social passa a situação imaginando tudo de ruim que o outro pode estar pensando sobre ela, num processo conhecido na abordagem cognitivo-comportamental como leitura mental. As bases da leitura mental são muito mais as próprias visões de si mesmo do que evidências reais dadas pelo outro de uma avaliação negativa. Ainda no exemplo do funcionário na reunião, ele pode pensar coisas como "Todos estão me achando um idiota" e "Estou ficando vermelho e todos vão perceber que estou nervoso".

 

Como se já não fosse suficiente o sofrimento antes e durante a situação social, após o acontecimento também é comum o fóbico social rever toda a situação e atormentar-se revisando cada detalhe, atentando-se a todos os pontos em que acredita ter ido mal e pensando em todas as possíveis avaliações negativas que pode ter recebido. Isto faz com que entre em novas situações ainda mais ansioso e com a certeza de que eventos passados são a prova definitiva de sua incompetência social.

 

A vida de um fóbico social é extremamente difícil, dadas as inúmeras situações sociais que vivemos todos os dias. Família, escola, faculdade, trabalho, lazer: todas as esferas de vida têm em si o contato com outras pessoas como elemento comum. Em ambientes como trabalho e escola ou faculdade, o desempenho social é parte fundamental da evolução naquele contexto, muitas vezes definindo notas, aprovações e promoções. A ansiedade social, além de machucar quem com ela convive, atrasa e, muitas vezes, paralisa vidas. Felizmente há tratamento para o transtorno. Na terapia cognitivo-comportamental o sujeito pode entender de que forma o quadro se apresenta dentro de seu funcionamento específico, conhecimento que o psicólogo construirá junto com o paciente e que será revisto durante todo o tratamento. O psicólogo ensinará o paciente a identificar e reestruturar os pensamentos e crenças que atrapalham o paciente nas situações sociais, além de aplicar técnicas de relaxamento e respiração para redução da ansiedade a níveis que não causem tanto prejuízo à vida. O paciente será preparado para enfrentar as situações mais temidas, uma por vez, da menos até a mais difícil, até que os níveis de ansiedade caiam e o sujeito consiga habituar-se àquela vivência. Um dos principais objetivos da terapia é ajudar o paciente a pensar de forma menos catastrófica e fazer menos leituras mentais, para que a pessoa possa estar presente e consciente em suas situações sociais, atenta ao ambiente e aprendendo com ele.

 

Talvez um dos maiores prejuízos trazidos pela ansiedade social seja o afastamento do mundo e de toda a riqueza de conhecimentos e novas visões que obtemos no contato com outro, aquele que é tão diferente de mim e tem tanto a acrescentar. E o mundo também perde quando um fóbico social não compartilha sua voz. Se você tem ansiedade social e busca terapia, o terapeuta estará ao seu lado no caminho de volta para tudo de mais belo, divertido e assustador que há na experiência da humanidade compartilhada. Juntos, vocês reencontrarão sua voz.

 

 

Quer conhecer mais um pouco sobre ansiedade social? Leia essas indicações:

 

Leahy, Robert L. Livre de ansiedade. Artmed Editora, 2012.

 

Markway, Barbara G., et al. Morrendo de vergonha. Grupo Editorial Summus, 1999.

 

 

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