O que passa pela sua cabeça: pensamentos e crenças

February 12, 2018

 Por Carolyne Juvenil, psicóloga e terapeuta cognitivo-comportamental

 

A terapia cognitivo-comportamental (TCC) trabalha com a ideia central de que são as interpretações feitas das situações, e não elas por si só, que causam reações emocionais, comportamentais e fisiológicas específicas. As interpretações feitas das situações vêm de três níveis de pensamento: pensamentos automáticos, crenças intermediárias e crenças centrais. Parece difícil, mas não é tanto assim. Vamos entender a ideia básica da TCC e os três níveis de pensamento através de um exemplo simples do cotidiano.

 

Imagine que um grande amigo seu passe ao seu lado na rua, mas não lhe cumprimente. As primeira coisas a passarem pela sua cabeça podem ser “Ele está chateado comigo”  ou “Fiz alguma coisa errada”. Esta ideia pode deixá-lo triste. Seu comportamento talvez seja passar o dia um pouco isolado e respondendo pouco às pessoas. Aquelas primeiras ideias que passaram em sua mente são conhecidas como pensamentos automáticos. Os pensamentos automáticos são involuntários e fazem uma avaliação imediata da situação vivida, trazendo consigo emoções e comportamentos condizentes com o que foi avaliado. Você não escolhe o pensamento automático que virá à sua mente, pois ele é rápido demais para isso, mas o mesmo guiará a forma como você se sente e o que fará depois.

 

Os pensamentos automáticos podem surgir na forma de frases ou de imagens mentais. Cada pessoa pode ter pensamentos automáticos completamente diferentes para as mesmas vivências. Na situação descrita anteriormente, uma pessoa que pensasse “Ele não deve ter me visto, depois nos falaremos” provavelmente não teria sentido a mesma tristeza e nem se isolaria como foi feito no primeiro caso. Pensar diferente fez com que as duas pessoas vivessem a experiência e o resto do dia de formas distintas.

 

 

 

 

 

Os pensamentos automáticos são originados por níveis mais profundos de processamento cognitivo. Logo acima dos pensamentos automáticos estão as crenças intermediárias, que são regras, pressupostos, atitudes e suposições que orientam uma pessoa no mundo. Elas são formas de lidar com o sofrimento causado pelas crenças centrais, que serão abordadas posteriormente. A estrutura das crenças intermediárias geralmente é iniciada por “Se...então”, “Devo”, “Tenho que”. No exemplo do amigo que não cumprimenta, o pensamento “Fiz alguma coisa errada” e as reações de tristeza e retraimento poderiam ter sido originados por crenças como “Devo me responsabilizar por tudo”, “As pessoas tem que ser sempre simpáticas e atenciosas” e “Se não me dão atenção...então fiz alguma coisa errada”.

 

O nível de processamento mais profundo e difícil de acessar é representado pelas crenças centrais. Elas são ideias rígidas, fixas e absolutistas que a pessoa tem sobre si, o mundo e os outros. As crenças centrais são desenvolvidas no início da vida de acordo com as experiências que a pessoa tem em seu ambiente. São ideias de tal forma enraizadas e dadas como certas que a pessoa não tem consciência delas. Os pensamentos, emoções, comportamentos e crenças intermediárias do exemplo dado ao longo do texto poderiam ter vindo das crenças centrais “Eu não tenho valor“ e  “As pessoas não gostam de mim”.

 

 

Na abordagem cognitivo-comportamental, o trabalho inicial é feito sobre os pensamentos automáticos. O terapeuta ensina o paciente a identificá-los, monitorá-los e reestruturá-los para formas de pensamento mais realistas e flexíveis, que levem em conta mais dados além dos que são fornecidos pelas suas crenças. Com a coleta constante de pensamentos automáticos, emoções e comportamentos associados, é feita a identificação das crenças intermediárias e centrais - que posteriormente tornam-se o foco da da terapia. O trabalho completo em terapia passa pelo trabalho em todos os níveis de pensamento, do mais superficial pensamento automático até as crenças mais profundas e dolorosas. Espera-se que a alteração na atividade cognitiva por meio de estratégias cognitivas, comportamentais e vivenciais traga também mudanças emocionais e comportamentais duradouras. Desta forma, há aumento da qualidade de vida e diminuição do sofrimento.

 

Fontes:

 

BECK, J. S. Terapia Cognitiva: Teoria e Prática. Artmed, 1997.

 

KNAPP, P. Terapia cognitivo-comportamental na prática psiquiátrica. Artmed, 2009.

 

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