Violência e TEPT em Empire

February 12, 2018

Por Carolyne Juvenil, psicóloga e terapeuta cognitivo-comportamental

 

Texto originalmente publicado no blog da equipe de pesquisa em Transtorno de estresse pós-traumático do IPUB/UFRJ.

 

A série norte-americana Empire, exibida pelo canal pago Fox desde o ano de 2015, apresenta o cotidiano de uma família extremamente disfuncional em meio ao ambiente violento de um império fonográfico do hip-hop. Um dos protagonistas é o cantor Jamal Lyon, interpretado por Jussie Smollett. A narrativa do personagem tornou-se dramática durante a terceira temporada, quando Jamal leva um tiro durante um atentado em uma premiação musical.

 

 

O comportamento de Jamal sofreu drástica alteração após o atentado. Antes carinhoso e extrovertido, o personagem tornou-se assustado, fechado em si mesmo e evitava qualquer proximidade com o mundo musical. Um ex-combatente de guerra logo percebeu que Jamal apresentava sintomas claros de Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), transtorno psiquiátrico desenvolvido após a exposição a um evento que representou ameaça à sua vida e integridade física. O personagem apresentou lembranças intrusivas ao recorrentemente recordar-se do momento em que a atiradora disparou a arma. Isto acontecia em situações nas quais estivessem presentes gatilhos que disparassem a lembrança traumática, como holofotes ou estar no palco. Jamal deixou de exercer suas atividades como cantor para evitar recordações da situação traumática, o que representou uma clara manifestação de evitação comportamental. Isto o levou a parar de apresentar-se publicamente, trazendo prejuízo claro para sua atividade de trabalho.  O cantor também estava frequentemente assustado, apresentando várias crises de ansiedade quando exposto a estímulos associados ao trauma vivenciado.

 

 

O pai de Jamal não aceitou as dificuldades do filho para voltar ao trabalho e não reconheceu a seriedade de sua condição psiquiátrica, obrigando-o a enfrentar as situações temidas intempestivamente. Não é incomum que familiares estranhem a mudança súbita de comportamento dos pacientes com TEPT, especialmente quando a mudança ocasiona dificuldades na capacidade de trabalho ou em outras atividades do cotidiano familiar. É importante que haja conhecimento sobre o transtorno mental para que o sujeito tenha seu sofrimento respeitado e busque o tratamento adequado o quanto antes, para que assim evite que sua condição torne-se crônica. Felizmente o personagem Jamal pôde contar com a ajuda do ex-combatente Philip, que lhe explicou sobre o diagnóstico, incentivando-o a participar de terapia de grupo. Há uma cena em que Philip inicia a exposição de Jamal aos ambientes temidos por meio de realidade virtual, criando cenários virtuais que gradualmente  ficariam mais complexos e incluindo mais elementos temidos por Jamal. Em revisão sistemática publicada pela pesquisadora do LINPES Raquel Gonçalves, os resultados dos estudos selecionados sugeriram que o tratamento com realidade virtual pode ser tão eficaz quanto a exposição tradicional a ambientes reais no tratamento do TEPT.

 

 

É positivo que haja representações responsáveis de transtornos mentais em produtos da cultura popular, como filmes e séries. Jussie Smollett, ator que interpreta o personagem Jamal, declarou que antes era ignorante a respeito de TEPT, acreditando que fosse um transtorno que acometesse apenas ex-combatentes de guerra. A experiência de viver Jamal fez com que entendesse a amplitude do transtorno. Por meio do drama vivido por seu personagem e também em outras séries de sucesso, como a série Jessica Jones, da Netflix, esperamos que o acesso da população ao conhecimento sobre saúde mental seja expandido e que mais pessoas possam ter acesso a ajuda profissional adequada e de qualidade.

 

O Laboratório Integrado de Pesquisa em Estresse (LINPES) oferece acompanhamento psiquiátrico e psicológico gratuito para pacientes com TEPT. Caso tenha reconhecido a si mesmo ou alguém conhecido na descrição do transtorno, entre em contato com a equipe pelo telefone 99656-4020, ou pelo endereço de e-mail: tepteviolenciaurbana@gmail.com.

 

Referência:

 

Gonçalves, R., Pedrozo, A. L., Coutinho, E. S. F., Figueira, I., & Ventura, P. (2012). Efficacy of virtual reality exposure therapy in the treatment of PTSD: a systematic review. PloS one, 7(12), e48469.

 

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