Quem eu sigo nas redes sociais me faz sentir bem?

April 13, 2018

 

Por Carolyne Juvenil, psicóloga e terapeuta cognitivo-comportamental

 

No ano passado, algumas reportagens falando sobre os efeitos negativos do uso do Instagram na saúde mental dos usuários foram bastante compartilhadas nas redes sociais. Segundo reportagem da BBC, um estudo britânico realizado com 1479 jovens entre 14 e 24 anos mostrou associação entre uso de redes sociais e ansiedade, depressão, solidão, bullying e questões com a imagem corporal. São dados assustadores, mas há o outro lado. Os mesmos entrevistados também falaram sobre a importância das redes sociais para a autoexpressão e reforço da própria identidade.

 

Faz algum tempo que noto um enorme movimento em torno de influenciadores digitais. É um movimento positivo, pois permite que o público obtenha fontes de informação e inspiração para além das oferecidas pelas mídias tradicionais - você escolhe quem seguir, se quer deixar de seguir e vê apenas o conteúdo que lhe interessa. Ao mesmo tempo em que há tantos benefícios, também há risco aumentado de exposição a informações e práticas que podem ser extremamente prejudiciais ao público. Na área de influenciadores que trabalham com o corpo, já chegamos a ver casos de blogueiras orientando suas seguidoras a cuspir pão ou a colocar um pedaço de chocolate na boca e cuspi-lo em seguida para passar a vontade de comer. São comportamentos típicos de transtornos alimentares sendo compartilhados por pessoas belas, jovens e que sempre postam imagens sorridentes em locais paradisíacos. A força que esse tipo de mensagem tem é muito mais forte do que uma postagem equilibrada falando sobre um comer saudável. Afinal, aquela pessoa age assim e é linda, feliz e rica. As fotos não estão ali provando isso?

 

Para além das postagens sobre saúde e alimentação, há muitas outras mensagens potencialmente danosas sendo compartilhadas repetidamente. Tanto nos canais adultos quanto infantis há estímulo excessivo ao consumismo. Gosto de estar atualizada em relação a novas tecnologias e faz dois anos que comecei a acessar o Youtube de forma assídua. A quantidade de vídeos de compras e recebidos é imensa. E são vídeos de até meia hora ou mais, geralmente com alto número de visualizações. Recentemente tornou-se moda também colocar o quanto você gastou com algo, como "Gastei 1000 reais em maquiagem!" ou "Comprei 800 reais em brinquedos!". O retorno do público é grande, fazendo com que tais conteúdos tornem-se cada vez mais frequentes.

 

A principal questão que deixo para você é: quais são os efeitos que as pessoas e o tipo de conteúdo que você está escolhendo seguir têm sobre a sua saúde mental? Aquela pessoa que só fala sobre sucessos e viagens está lhe motivando ou fazendo com que sua percepção de ser um fracasso só aumente? Quais pensamentos sobre o seu corpo são ativados quando você vê fotos retocadas de pessoas com corpos esculturais? Ao ver a quantidade de produtos que aquele influenciador recebeu, você sente vontade de ter mais, mesmo que antes não estivesse sentindo necessidade de comprar nada novo? Ao sair do Instagram ou do Facebook, você se sente leve e relaxado ou insatisfeito, como se faltasse algo?

 

Se as respostas às perguntas anteriores forem principalmente negativas, pode ser a hora de não necessariamente deixar de seguir quem faz a sua vida parecer pequena, mas principalmente de buscar novas referências. Lutar contra as redes sociais é ir contra a marcha do tempo e da inovação, então devemos trabalhar em nós mesmos a melhor forma de usá-las. Não é um problema ficar triste ou sentir emoções desconfortáveis, pois elas fazem parte da vida. Porém, devemos prestar atenção se a forma como usamos as redes tem contribuído para que esses sentimentos desagradáveis e ideias que machucam apareçam com muita frequência. Muitas vezes o nosso feed, especialmente o feed visual de redes como o Instagram, pode estar repleto de pessoas reforçando um mesmo padrão - físico, de pensamento e material - que nos faz crer que somos o peixe fora d'água em um mundo que é todo igual e infinitamente melhor que o nosso. Olhar para o mundo mais amplo, observar que há diversas formas de viver e que todas elas têm seus pontos altos e baixos pode ser um pequeno passo para que você se compare menos e tenha mais carinho pela pessoa que você é hoje. Ficarei na torcida para que as suas redes sociais tragam menos dor, imagens e ideias prontas e possam abrir caminho para mais sentimentos agradáveis, reflexão e autoceitação.

 

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