Racismo e desigualdade social: qual é o papel do terapeuta cognitivo?

July 5, 2018

Por Carolyne Juvenil, psicóloga e terapeuta cognitivo-comportamental

 

Texto originalmente publicado no blog da equipe de pesquisa em Transtorno de estresse pós-traumático do IPUB/UFRJ.

 

 

Os dados relativos à vida da população negra brasileira são em geral alarmantes. Em pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha em 2018, 81% da população parda do Rio de Janeiro afirmou ter medo de que seus filhos sejam presos injustamente, contra 67% dos brancos entrevistados. A morte também é desigual. O Relatório do Índice de Vulnerabilidade Juvenil à violência de 2017 aponta que jovens negros têm 2,71 mais chances de serem vítimas de homicídio do que jovens brancos no país. Os dados se repetem no que se refere a risco de vida dentro do mesmo sexo: de acordo com o Atlas da Violência de 2017, entre os anos de 2005 e 2015 felizmente houve redução de 7,4% na taxa de homicídios de mulheres brancas, ao passo que durante a mesma década houve assustador crescimento de 22% na taxa de homicídio de mulheres negras no Brasil. Os dados citados são apenas uma pequena parte das informações coletadas anualmente por diversas pesquisas que, em conjunto, evidenciam a desigualdade racial existente no Brasil quando se pensa em estressores e vulnerabilidade física e social.

 

Membros de grupos de minorias – no sentido de desvantagem social, não numérico -, tendem a ser alvo mais freqüente de diversos estressores (Faro, 2011). Isto gera um pior perfil de saúde, diferenciando o sujeito de uma minoria daquele pertencente a um grupo socioeconomicamente dominante. Na prática do psicólogo clínico, o paciente negro pode chegar ao consultório com altos níveis de estresse crônico, histórico de racismo percebido e diversas crenças negativas relacionadas a si e ao mundo.

 

É essencial que o psicólogo reconheça a especificidade dos estressores sociais aos quais aquele paciente está submetido. Isto pode ser feito por meio do não-questionamento de situações racistas, por exemplo, pois os dados citados demonstram que a desigualdade racial faz parte da estrutura sobre a qual se baseia nossa sociedade, indo muito além do individual. Neste âmbito, é importante que o terapeuta cognitivo-comportamental entenda os dados relativos à vida da conceitualização cognitiva de forma mais ampla, compreendendo o ambiente que influencia a formação psicológica do sujeito para além do ambiente direto de família e escola. Questões sociais relacionadas a racismo e desigualdade social permearão inúmeros aspectos psicológicos específicos do paciente, como autoestima, desesperança, medos, ansiedade e depressão. É importante o trabalho com os pontos fortes do paciente e de seu grupo social, além do fortalecimento da identidade racial.

 

O mais importante no trabalho com pacientes negros no contexto brasileiro são a empatia e o acolhimento e respeito ao sofrimento psíquico. A escritora e psicóloga Jarid Arraes apresentou em artigo na Revista Fórum relatos de casos nos quais psicólogos negaram as vivências racistas de pacientes negros – pessoas que se vulnerabilizaram frente a profissionais nos quais confiaram e tiveram seu sofrimento negado. Os cursos superiores de Psicologia não incluem em seu currículo disciplinas e bibliografias relacionadas ao manejo da desigualdade racial e do racismo na prática profissional, o que leva os profissionais a atuarem de forma genérica e baseada em suas próprias crenças. Na prática específica da TCC, isto pode levar ao questionamento de relatos de racismo como distorção cognitiva, o que pode invisibilizar a dor do paciente e criar uma relação negativa com a própria Psicologia.

 

A terapia cognitiva trabalha com o exame de evidências para construção de formas de pensar mais racionais, que levem em conta dados de realidade. Os dados de pesquisas de institutos renomados têm informado que a distribuição do estresse e da vulnerabilidade não é a mesmo para diferentes grupos étnicos na população brasileira, independentemente dos processos de miscigenação que nos constituíram enquanto nação. Se você é terapeuta cognitivo e não acredita na existência do racismo individual e estrutural e no impacto que tais vivências têm sobre seus pacientes, talvez seja o momento de questionar socraticamente de onde vêm as evidências que embasam as suas crenças.

 

Fontes:

 

Arraes, Jarid. “Meu psicólogo disse que racismo não existe”. Disponível em: https://www.revistaforum.com.br/meu-psicologo-disse-que-racismo-nao-existe/

 

Atlas da Violência 2017. Disponível em: http://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/download/2/2017

 

Faro, A., & Pereira, M. E. (2011). Raça, racismo e saúde: a desigualdade social da distribuição do estresse. Estudos de Psicologia, 16(3).

 

Índice de Vulnerabilidade Juvenil à Violência 2017. Disponível em: http://www.unesco.org/new/pt/brasilia/about-this-office/single-view/news/indice_de_vulnerabilidade_juvenil_a_violencia_2017_desig/

 

Kelly, S. (2006). Cognitive-behavioral therapy with African Americans. Culturally responsive cognitive-behavioral therapy: Assessment, practice, and supervision, 97-116.

 

No Rio, negro e morador de favela têm mais medo da polícia, diz Datafolha. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2018/04/no-rio-negro-e-morador-de-favela-tem-mais-medo-da-policia-diz-datafolha.shtml

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