O impacto de traumas cumulativos sobre a saúde mental

August 8, 2018

 

 

Por Carolyne Juvenil, psicóloga e terapeuta cognitivo-comportamental

 

Texto originalmente publicado no blog da equipe de pesquisa em Transtorno de estresse pós-traumático do IPUB/UFRJ.

 

De acordo com a quinta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM 5), o critério básico para Transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) envolve a exposição a um episódio concreto ou ameaça de morte, lesão grave ou violência sexual, seja vivenciando diretamente o evento, testemunhando-o pessoalmente, sabendo que ocorreu com familiar ou amigo próximo ou sendo exposto de forma repetida ou extrema a detalhes aversivos do evento traumático. Apenas um evento ao longo da vida que se adeque aos critérios citadas é suficiente para que uma pessoa desenvolva o TEPT, transtorno que, associado a outros sintomas, atrapalha significativamente o funcionamento emocional, social, ocupacional e acadêmico. Sendo a exposição a um único evento o bastante para o desenvolvimento de um transtorno tão incapacitante, como será, então que a exposição a múltiplos eventos traumáticos afetam a saúde mental do indivíduo?

 

Traumas cumulativos (ou polivitimização) referem-se à exposição que uma pessoa tem a diferentes tipos de traumas ao longo da vida. Na definição aqui usada, uma mulher que sofreu abuso sexual repetidas vezes ainda seria vista na categoria de trauma único, ainda que agravado pela experiência da repetição do trauma. Já outra mulher que tenha sofrido abuso sexual e violência doméstica teria passado por traumas cumulativos, por serem duas categorias distintas de trauma vividas pela mesma pessoa. Pesquisas indicam que a exposição a múltiplos traumas, especialmente na infância, afeta o bem-estar psicológico e emocional. Isto ocorre por serem vivências durante o período do desenvolvimento do ser humano, quando estão sendo construídas as bases de sua personalidade. Sendo assim, as experiências nesta fase moldam a forma de a pessoa enxergar e relacionar-se consigo mesma e com o mundo. Em estudo realizado por Cloitre et.al, traumas cumulativos como abuso e maus-tratos na infância foram responsáveis por maior complexidade nos sintomas  psicológicos do que traumas cumulativos na idade adulta, com as participantes relatando maiores níveis de estresse pós-traumático, dificuldades na regulação emocional (depressão, raiva  e dissociação) e também na regulação interpessoal. Segundo os autores, cada tipo de trauma infantil aumentou em 17% as chances de maior complexidade dos sintomas.

 

As condições de vida também podem influenciar na exposição a traumas, como visto em estudo conduzido por Follette et.al que comparou mulheres advindas de serviços comunitários com uma amostra universitária. Mesmo com as diferenças socioeconômicas, 73% de todas as mulheres relataram algum trauma ao longo da vida, com altas taxas de abuso sexual infantil (49%) e violência física conjugal (55%). A diferença ficou clara na manifestação dos sintomas psicológicos e emocionais como ansiedade, depressão, dissociação, problemas de sono e sexuais, mais graves na amostra da comunidade. É possível pensar a partir dos resultados deste e de outros estudos sobre a vulnerabilidade física e emocional a qual mulheres estão submetidas, caindo com mais força sobre as mulheres em maior desvantagem social.

 

Há fortes evidências para sustentar que o acúmulo de traumas ao longo da vida leva a uma apresentação clínica mais complexa, com sintomas de depressão, ansiedade, raiva, dissociação e outros interagindo em conjunto para reduzir o bem-estar e qualidade de vida da vítima. Estas vivências tornam difícil para a pessoa realizar todo o seu potencial, levando, talvez a vidas menos significativas. Devido à gravidade das conseqüências sobre a saúde mental e física desses indivíduos, é essencial que o psicólogo investigue a presença de traumas ao longo da vida de seu paciente, se há efeito cumulativo de diferentes categorias de vivências traumáticas e em que fases do desenvolvimento ocorreram as experiências, pois é possível que a utilização de abordagens de tratamento baseadas em traumas únicos não dê conta da complexidade da apresentação clínica do paciente.

 

E a você, que se identificou com o texto, saiba que você não está preso ao seu passado e que suas experiências traumáticas não o definem por completo. Existe ajuda especializada para que a sua vida ganhe a beleza e significado que lhe foram negados até hoje.

 

 

Referências

 

American Psychiatric Association. (2014). DSM-5: Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Artmed Editora.Martin, 2013

 

Cloitre, M., Stolbach, B. C., Herman, J. L., Kolk, B. V. D., Pynoos, R., Wang, J., & Petkova, E. (2009). A developmental approach to complex PTSD: Childhood and adult cumulative trauma as predictors of symptom complexity. Journal of traumatic stress, 22(5), 399-408.

 

Contractor, A. A., Caldas, S., Fletcher, S., Shea, M. T., & Armour, C. (2018). Empirically derived lifespan polytraumatization typologies: A systematic review. Journal of clinical psychology.

 

Finkelhor, D., Ormrod, R. K., & Turner, H. A. (2007). Poly-victimization: A neglected component in child victimization. Child abuse & neglect, 31(1), 7-26.

 

Follette, V. M., Polusny, M. A., Bechtle, A. E., & Naugle, A. E. (1996). Cumulative trauma: The impact of child sexual abuse, adult sexual assault, and spouse abuse. Journal of traumatic stress, 9(1), 25-35.

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